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Dinossauros Lusos

WTF DUDE

O Ano de Portugal no Brasil propõe mostrar o Portugal de AGORA e, ao contrário do que uma interpretação mais precipitada pode sugerir, o passado do nosso país não fica de fora do cardápio. Octávio Mateus, paleontólogo de referência internacional explica: “É também estudando o passado que se constrói o futuro.”         

O trabalho deste paleontólogo, investigador na Universidade Nova de Lisboa e graduado pela Universidade de Évora, bem como o da restante equipa que colabora com o Museu da Lourinhã é exemplo do nosso melhor presente.A crescer desde 1984, hoje, a colecção de fósseis de dinossauros do Jurássico Superior que pode ser visitada neste museu é uma das maiores do mundo. Além da paleontologia, com maior fama, o espaço também se divide noutras três secções: arqueologia, arte sacra e etnografia. “O nosso país é privilegiado no seu património de dinossauros, e não só. O Museu da Lourinhã, situado na zona Oeste, tem cerca de 25.000 visitantes por ano, o que é considerável, tendo em consideração a sua localização e financiamento.” – avalia positivamente Octávio Mateus. 

Esta área de conhecimento cresce à medida que mais dinossauros se erguem das terras lusas graças ao trabalho dos nossos paleontólogos. Por exemplo, pela primeira vez vai haver um mestrado de Paleontologia em Portugal.“Cresce o interesse e a consciencialização da riqueza paleontológica.”

Riqueza que não se esgota no museu – o trabalho de campo continua; os achados parecem não se esgotar, do Porto ao Algarve, ainda com que especial abundância na Região Oeste. Boas notícias para os que cada vez mais sonham com este ofício. “As pessoas da geração que viu o “Jurassic Park” em criança ficaram apaixonadas pelos dinossauros e estão agora a escolher o ramo profissional e a tornarem-se os paleontólogos do futuro.” Mas desengane-se quem pensa que este trabalho não é mais que abrir um buraco, montar um puzzle de ossos e por fim abrir um dicionário de Latim, a fim de baptizar o novo dinossauro. “Numa descoberta, o processo começa pela prospecção, ou seja, pela procura activa de novos fósseis. Segue-se a recolha, o que pode implicar uma escavação. A parte mais demorada é a da preparação laboratorial mas que deixa os ossos prontos a serem estudados e expostos num museu. O estudo vai esclarecer qual o tipo de fóssil e a sua importância e caso seja uma espécie que tenha características únicas, nunca descritas, então é possivelmente uma nova espécie e podemos 'baptizar' num artigo científico.” Além disto, o paleontólogo ainda tem de ter tempo para escrever artigos científicos, procurar financiamento e dar aulas.       

Octávio Mateus rejeitou a ideia de que um paleontólogo tem por vezes vontade de ter à sua disposição uma máquina do tempo – o seu trabalho é “como o de um detective”. O entusiasmo está em juntar as pistas, trabalhar e estudar muito, imaginar um tanto com rigor científico, descobrir um passado que nunca foi memória de ninguém. Foi assim que conseguiu descobrir “ovos e embriões de Lourinhanosaurusem Paimogo (Lourinhã), que se tratam um dos mais antigos registos de embriões conhecido”, ou “o dinossauro Miragaia longicollum, que é muito invulgar pois é um estegossauro de pescoço longo.”Estes dinossauros portugueses já mereceram a atenção do resto do mundo. A DiscoveryChannel dedicou aos achados da Lourinhã um dos seis episódios de um documentário temático realizado por John Tindall; e, recentemente, Octávio Mateus ganhou uma bola da Fundação Jurássico, de Steven Spielberg.

“O país tem numerosas ofertas e os dinossauros lusos são em excelente património", diz com orgulho.

Um dos objectivos do Ano de Portugal no Brasil é encurtar distâncias entre os dois países, através do aumento da informação e do conhecimento dos brasileiros sobre Portugal. A aproximação faz-se com exemplos do nosso melhor presente, que ainda se tornamelhor quando tem futuro e um pé no Jurássico. É provável que a distância física fosse ultrapassável há cento e cinquenta milhões de anos: “No caso do Allosaurus e Torvosaurus eles também viveram na América do Norte, pois durante o Jurássico Superior (150 milhões de anos) os continentes estavam muito mais próximos e o Atlântico ainda era um mar pouco profundo.” Hoje a distância é bem menor: desde logo porque há vontade de que assim seja. Por isso se faz o Ano de Portugal no Brasil.

 

André Santos e António Vieira